Blog Tolstoi

Quando Tolstoi jogou Futebol [Do Passado]

[Do Passado] são textos que escrevi há muito tempo.

Este abaixo é de 1995… não fiz nenhuma alteração, vai como está! :-)

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O futebol é um fenômeno cultural curioso: adorado em quase todas as nações, é desprezado na mais desenvolvida de todas — os Estados Unidos. Recente episódio de Os Simpsons ironizou cruelmente o soccer, ressaltando seus empates e escores baixos. No desenho, diante de uma partida caricatamente chata, os torcedores, enfastiados, resolveram se divertir brigando — provável alusão irônica aos famosos tumultos em estádios da Europa.

Se os americanos ironizam os placares baixos (e que triste sina o zero a zero na decisão da Copa de 94!), em contrapartida o mundo todo deve exatamente a isso a adoração que tem pelo esporte. Afinal, a meta é difícil, e sua conquista muito mais empolgante. Também aplaudo a possibilidade de empate. Futebol e xadrez são, pessoalmente, meus jogos preferidos: exatamente os únicos que têm o empate em suas regras. No futebol, é uma decorrência inevitável da dificuldade do gol e do tempo fixo; no xadrez, uma possibilidade lógica, imune a prorrogações e disputas de pênaltis. No xadrez, é praticamente uma vitória das pretas, assim como no futebol é de quem jogou fora de casa, ou de quem perdia até o último minuto.

O que lamento no futebol de hoje é o fenômeno de superprofissionalização. Que ele tenha se transformado num grande negócio, estupendamente lucrativo, é natural no contexto econômico. Porém isso gera uma expectativa irreal em relação a resultados. Uma coisa é uma empresa exigir máxima eficiência de seus funcionários, outra é exigir, dos mesmos funcionários, a vitória num jogo. Essa idéia supervalorizou o trabalho dos treinadores, que tiveram seus proventos majorados em demasia nos últimos anos — é deles que se espera uma estratégia infalível para que os também onerosos atletas sejam bem aproveitados.

O fato é que a prática já demonstrou que o desenrolar de uma partida de futebol é como o desenrolar de uma batalha para o russo Tolstoi. Tolstoi viveu no século XIX e não conheceu o futebol. Para ele, “campanha” era um período de guerra do exército, e o inverno russo que derrotou os franceses foi uma tremenda sorte (dos russos). De fato, esse escritor dedicou um grande capítulo de seu clássico Guerra e paz para explicar a quase absoluta inutilidade dos generais depois que seus comandados mergulhavam na luta. Comentando o poder das guerrilhas em enfrentamentos de caráter popular, exaltou o “estado de espírito” dos guerreiros (militares ou não) como primordial. Nas frentes, os combatentes experimentam novas condições psicológicas, e inevitavelmente são também vítimas de ocorrências acidentais. Acaso e força de vontade fazem a diferença, e podem até dar a vitória ao lado inferiorizado em número.

Os comandantes podem pensar com orgulho que, organizando táticas e dispondo estratégias, jogam uma partida de xadrez; na verdade, disputam um jogo de futebol, cujos técnicos também perdem o controle do que acontece no campo depois que grandes oportunidades se esvaecem nas traves ou nas mãos do goleiro adversário. A pequenos acidentes cabe costumeiramente a inversão de certos resultados. Até infrações às regras podem ser decisivas — nos campos de batalha como nas batalhas em campos — quando acontecem falhas na arbitragem: nem a esse tipo de evento a sorte dos treinadores está imune. Não espanta que um estudo de doutoramento sobre a linguagem relacionada ao futebol tenha levantado o enorme número de vezes em que a palavra “sorte” é empregada em seus meios (pela imprensa e pelos próprios profissionais).