VIVER MENTE & CÉREBRO, 2004

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Matéria publicada na revista Viver – mente & cérebro (licença de “Scientific American”) de setembro de 2004, escrita pela repórter Ana Garcia.

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LABIRINTOS DA RAZÃO
O personagem, em sua solidão, se debate por não ser um homem bom

Gregório é um homem atormentado pela razão. Possível retrato de uma geração excessivamente cerebral, ele deixa fluxos e contrafluxos de pensamentos dominar sua vida. Ele pergunta, ele mesmo responde. Com outra pergunta. Submerge em um labirinto de indagações sem fim, em que imperam a lógica e a filosofia. Cada questionamento é uma tentativa de entender a condição humana. Mas ele pensa demais. E as respostas levam a uma humanidade sem saída – afinal, raciocina Gregório, se fôssemos verdadeiramente generosos e corretos, nem precisaríamos pensar nisso. Se a bondade é resultado de uma decisão, já perdeu sua qualidade intrínseca. Como o ser humano sempre calcula seus atos, conclui, não há bondade possível, apenas ações baseadas em equações de custo e benefício. A esmola oferecida ao mendigo nada mais é do que um impulso gerado pela pressão da sociedade em favor do próprio bem-estar moral. Isto é fraternidade?

Rapidamente Gregório conduz a platéia à reflexão e ao mesmo estado vertiginoso de dúvidas em que se encontra. Oferece-nos o momento do qual geralmente procuramos nos afastar: aquele em que saímos da superfície cotidiana e nos dispomos a compreender o mundo para além do que se apresenta aos nossos olhos. Buda, Jesus e Sócrates são algumas das figuras que dialogam com o personagem principal.

O texto de estréia de Paulo Santoro faz da viagem de Gregório para dentro de si mesmo um passeio denso mas agradável, com o qual é fácil se identificar. Segundo o diretor Antunes Filho, o autor será um expoente da dramaturgia em alguns anos. É ver para saber.

[Agradeço à editora-executiva Rose Campos por ter autorizado a publicação da nota nesta página.]