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HISTOREMAS

A realidade tem mil tons de cinza.

Historema. s. m. 1. Maior que um tuíte. 2. Menor que um conto. 3. Um pedaço básico de história.

Estou relançando as “historemas” depois de ter infelizmente perdido o site anterior, incluindo os comentários. Publicarei uma por uma, a cada semana. Deixe o seu comentário por lá! Clique aqui para ir ao novo site.

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O TESTE DE TURING

O teste de Turing está finalmente em cartaz!

Estreia hoje, 15 de julho de 2016, uma peça que concluí em 2004 — depois disso ela passou apenas por leves ajustes de algumas frases. Foram, portanto, mais de 4.000 dias de espera, o que justifica minha alegria!

Depois de assistir a um ensaio geral, sinto-me entusiasmado: o trabalho de direção de Eric Lenate foi espantoso, e o elenco inteiro está brilhando — Maria Manoella, Jorge Emil, Rodrigo Fregnan e Felipe Ramos.

Clique abaixo para ler algumas matérias de imprensa sobre a estreia:

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O ESTUPRO, A IDEOLOGIA E O LADO EM QUE VOCÊ ESTÁ

Essa coisa pavorosa que aconteceu no Rio e mobilizou a internet provocou no Sensacionalista uma inusitada postura: um dia sem piadas. Certamente não tinha como fazer graça com qualquer coisa.

O próprio Sensacionalista, hoje, fazendo “piada séria”, apontou a ferida para todos com sua manchete: “Polícia do Rio vai considerar mortos em áreas violentas como homicídio consensual”.

É uma resposta perfeita para a execrável atitude do delegado incumbido do caso. A advogada da vítima está pedindo a substituição desse delegado, que chegou a perguntar para a menina se ela “tinha por hábito fazer sexo em grupo”. Dá pra acreditar?

Mesmo no desespero dessa situação, vamos tirando vários ensinamentos. Ah, podemos deixar as piadas de lado, mas nunca podemos perder a chance de aprender coisas. O estupro ocorreu uma semana depois do fechamento do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, pelo interino Temer.

Exato: para toda a ideologia que invadiu o governo — essa ideologia que sempre quer fingir que não é uma ideologia —, não vale gastar nem um centavo com esse órgão que tinha um papel importante e consumia uma fração inexpressiva do orçamento federal.

Então aprendemos que o mercado não está fazendo nada pelas mulheres, a não ser pagar-lhes salários menores e fazer delas exposição publicitária — como a glamourização do estupro que ilustra este texto.

É nessa hora que vemos que todos os ideólogos da derrubada da Dilma estão comprometidos com o machismo: Olavo de Carvalho e seu feminismo como “coisa de mulher trouxa”, Reinaldo Azevedo e sua crítica à “patrulha feminazi”, Frota e sua piada do estupro da freira, Kim Kataguiri e suas feministas semelhantes ao miojo, Bolsonaro e sua fileira de barbaridades, para não falar de todos os “pastores” políticos que querem as mulheres inocentes dentro de casa: somente essas não merecem ser estupradas.

É mais um momento para você entender muito bem de que lado você está, ou deveria querer estar, no meio desta merda toda.

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POR QUE GOSTAMOS DE CINEMA?

Sabem por que gostamos de filmes de cinema?

Na segunda-feira, você está ocupado com seu desempenho no trabalho, manda currículos em prospecção de novas oportunidades, planeja cursos, concursos, vislumbra dias diferentes.

Na terça, tudo o que lhe ocorre é sair, encontrar uma mulher bonita, abraçá-la e beijá-la, ir para a cama com ela.

Na quarta vem uma dor de barriga, os remédios não funcionam, você não sabe se vai ao pronto-socorro lotado ou se enfia dois dedos na garganta.

Na quinta-feira vêm à sua cabeça pensamentos edificantes: sua vida é curta, mas é única, é bela, você sente aquela liberdade para abrir os braços e gritar ao universo sua existência.

Mas na sexta-feira a privada entope, alaga o banheiro todo, você não acha um encanador e tem que pedir para se lavar no vizinho.

No sábado você reconhece que tem de agradecer aos Céus por não ter ocorrido nenhuma tragédia em sua vida.

E no domingo você vai ao cinema. Como é relaxante! Porque nos filmes cada personagem só se preocupa com um aspecto da vida. Por exemplo, um romance. O moço conhece a moça, gosta dela. Descobre que ela tem namorado, mas a convida para um café num dia, força um encontro casual no outro, monitora o relacionamento oficial, fica contente quando eles discutem, inventa outros artifícios, passa meses nesse investimento — e você não o viu trabalhando, nem pagando contas, nem esquentando o almoço, nem ligando pra família, nem tomando remédio, nem consertando o vazamento, nem fazendo o supermercado. Não houve uma segunda, uma terça, um sábado. A vida dele estava dedicada àquela paixão e nada mais. Como é relaxante apreciarmos essa simplicidade!

Melhor ainda é aquele filme de ação em que o sujeito precisa salvar o mundo. O míssil vai ser detonado pelo bandido, e matará 1 milhão de pessoas. Diante dessa situação, o herói pode tudo. Não apenas pode: deve! Se ele precisa de um carro, pegará qualquer um que estiver estacionado. Cometerá todas as infrações de trânsito do código. Dará tiros, enganará porteiros, saltará pela janela segurando uma corda, provocará outras explosões. Não importa, o objetivo premente deixa claro o que deve ser feito. Como é relaxante uma vida em que se pode agir sem sofrer nenhuma dúvida!

Mas nós estamos presos aos altos e baixos, às decisões cheias de opções cinza, às pequenezas que atrapalham nossas aspirações épicas.

(Gostaria de escrever um pouco mais, mas preciso ir pôr o lixo para fora. Até breve.)

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Lobato, branco de alma negra?

A imagem acima é de uma escola infantil de São Paulo que fica numa avenida bem movimentada. Dentre as caricaturas coloridas de bons escritores nacionais, está a de Monteiro Lobato, há muito tempo pichada e não restaurada.

Esse vandalismo representa um novo tipo de intolerância que exige que as pessoas sejam completamente perfeitas.

Monteiro Lobato, como intelectual, fez uma obra fascinante que mostra seu repúdio à marginalização dos negros. Basta ver alguns contos do livro Negrinha.

O primeiro, que dá título ao volume, é o relato sensível e emocionante de uma filha de escrava a quem não era dado o direito de brincar. Ele procura despertar a nossa empatia em relação a uma figura claramente injustiçada. Já no conto ”O jardineiro Timóteo”, o protagonista é um grande artista da jardinagem, um poeta que acaba tendo de se revoltar contra a insensibilidade representada pela opressão dos brancos.

Na mesma obra em que traz essa crítica social, Lobato mostra que sua preocupação é com o sofrimento do ser humano, não importa a classe, a cor ou o gênero. Se no primeiro conto temos uma mulher pobre e negra como vítima da sociedade, em “O drama da geada” temos um belo trabalho de contradições, em que um rico fazendeiro branco é que emociona o leitor ao ter sua plantação devastada.

Quem picha Monteiro Lobato deveria aprender especialmente com o conto “Duas cavalgaduras”, um dos melhores exemplares de história contra a praga do maniqueísmo. Ele ri de si mesmo e sabe reconhecer seus erros, uma grandeza infrequente naqueles que fazem julgamentos definitivos e tão superficiais.

O autor ainda mostra mais de sua versatilidade e capacidade com outros contos incríveis, como o divertido “A facada imortal”, o otimista “Sorte grande”, o espiritualista “Os negros”, o sombrio “Bugio moqueado” e o intenso “As fitas da vida”.

Se eu terminasse a postagem aqui, o moderno maniqueísta padrão me acusaria (se é que ele terá lido a obra de Lobato) de “omitir” os lapsos linguísticos do autor em algumas dessas histórias — como a de um narrador elogiar um negro dizendo-o “branco por dentro”. Mas este é um problema marginal. Transparece aqui, sem dúvida, um racismo implícito na linguagem de seu cotidiano. O questionamento dessas armadilhas da expressão é um fenômeno mais recente. Lobato fala como sua sociedade falava. A civilização é um constante aprendizado.

A prova do não racismo de Lobato é que em essência, como já demonstrado, suas obras condenavam explicitamente o racismo.

Para não me alongar desnecessariamente, recomendo este texto mais extenso, no blog do Luis Nassif, e também esta breve apresentação na SBPC sobre a questão.

Com Celia Bermejo e Pedro G. de las Heras, atores espanhóis de "O fim de todos os milagres"

O que é ser um escritor “brasileiro”?

Em outubro de 2015, algumas peças brasileiras contemporâneas foram apresentadas ao público espanhol em Madri. (Na foto, estou com Celia Bermejo e Pedro G. de las Heras, artistas que atuaram em meu texto O fim de todos os milagres.) Os autores presentes (tive a ótima companhia de Pedro Brício e Silvia Gomez) tiveram algumas conferências com público e estudantes de Teatro. Levei comigo, para leitura, o texto abaixo, que gostaria de compartilhar também com o público brasileiro.

Hoje estou aqui como um autor brasileiro. Minha peça foi escrita originalmente em português do Brasil, eu fui trazido pelo governo brasileiro e estou hospedado na Casa do Brasil.

Não tenho certeza do que significa ser brasileiro, para um europeu. O que eu sei é que existe, no próprio ambiente cultural do Brasil, uma certa obsessão pela busca de uma “brasilidade” em um povo que ainda está engatinhando na sua constituição como nação.

Minha avó, mãe de minha mãe, nasceu aqui na Espanha. Na província de Granada, na cidade de Salobreña. Seu sobrenome era Rodrigues. Todos os meus bisavós eram italianos. Ou seja, há apenas três gerações, minha família era inteiramente europeia. Eu falo uma língua europeia e meu sobrenome ainda é muito comum na Itália.

Pelo menos três escritores conhecidos como brasileiros mereciam maior conhecimento universal: Machado de Assis, Graciliano Ramos e Clarice Lispector. Clarice Lispector, a melhor escritora brasileira, nasceu na Ucrânia. Adoro esses autores, que criaram algumas das melhores obras que conheço, mas sempre contestei o fato de que, nas escolas do Brasil, exista uma insistência no ensino exclusivo de escritores nacionais, inclusive os menos importantes, em detrimento de obras essenciais da literatura universal. Por maior que seja a importância que se deva dar aos autores nacionais, infelizmente falta nas escolas e nos vestibulares brasileiros uma atenção às obras de Cervantes, Goethe, Kafka ou Dostoievski.

Não vou renegar meus hábitos e minha origem: sou brasileiro. Mas, por história e natureza, tenho uma sensibilidade europeia. Cresci lendo diversas literaturas. A brasileira foi apenas uma delas. Como escritor e pensador, em essência, minha nação é o ser humano.

Será que isso é bom para um brasileiro?

Tivemos no Brasil há algumas décadas um interessante autor que escreveu um romance com estilo semelhante ao de “As Mil e uma noites”, em que contava a história de um árabe que era um lendário prodígio em matemática. O nome do livro é “O homem que calculava”. Para publicá-lo, foi muito esperto: usou o pseudônimo Malba Tahan, criando até mesmo uma história para esse autor fictício, à maneira do poeta Fernando Pessoa e seus heterônimos. Fez isso porque um brasileiro não podia escrever sobre um tema universal, com ambientação árabe, e ainda assim receber atenção, a menos que jogasse esse jogo de falsas aparências. Dessa forma, com um bom livro, fez muito sucesso. Ainda hoje, há pessoas cultas no Brasil que não sabem que Malba Tahan era brasileiro.

Já cheguei a pensar em fazer o mesmo. Se pudesse voltar no tempo, em 2004, quando minha primeira peça de teatro foi dirigida por Antunes Filho, eu assumiria o nome Paolo Santoro, com “o” como na Itália, e me esconderia atrás de uma imagem de um moderno autor europeu.

Afinal, minha peça não fala de selva nem de sertão, não fala de seca nem de violência, não fala de fome, nem de futebol, nem de favela. Todos os temas têm seu lugar ao sol, mas no Brasil é extremamente difícil obter reconhecimento falando de filosofia e de existência, como fazem autores europeus — a menos que você traduza um europeu “legítimo” que toque nesses assuntos.

Ironicamente, talvez nem seja na Europa que encontrarei meu público. Será que um pobretão de país subdesenvolvido pode vir aqui querendo se irmanar com seus ídolos? Será que o público europeu também não vai me rotular e esperar, desse autor que vem do Brasil, os mesmo clichês? “O quê? Mas então você não escreveu sobre o Carnaval? Não escreveu sobre novelas de TV ou sobre a corrupção? Não escreveu sobre o verão tropical e suas misérias? Quem você pensa que é?”

Felizmente estou aqui num encontro de artistas, ou seja, pessoas que em primeiro lugar abrem mão de preconceitos para tentar enxergar o que cada coisa realmente é. Por fim, dedico a leitura de “El fin de todos los milagros” a todos os meus antepassados que saíram da Europa num período de grandes dificuldades e migraram para o Brasil, levando consigo o amor pela cultura e pela educação, que chegou até mim. Obrigado.

Blog Tolstoi

Quando Tolstoi jogou Futebol [Do Passado]

[Do Passado] são textos que escrevi há muito tempo.

Este abaixo é de 1995… não fiz nenhuma alteração, vai como está! :-)

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O futebol é um fenômeno cultural curioso: adorado em quase todas as nações, é desprezado na mais desenvolvida de todas — os Estados Unidos. Recente episódio de Os Simpsons ironizou cruelmente o soccer, ressaltando seus empates e escores baixos. No desenho, diante de uma partida caricatamente chata, os torcedores, enfastiados, resolveram se divertir brigando — provável alusão irônica aos famosos tumultos em estádios da Europa.

Se os americanos ironizam os placares baixos (e que triste sina o zero a zero na decisão da Copa de 94!), em contrapartida o mundo todo deve exatamente a isso a adoração que tem pelo esporte. Afinal, a meta é difícil, e sua conquista muito mais empolgante. Também aplaudo a possibilidade de empate. Futebol e xadrez são, pessoalmente, meus jogos preferidos: exatamente os únicos que têm o empate em suas regras. No futebol, é uma decorrência inevitável da dificuldade do gol e do tempo fixo; no xadrez, uma possibilidade lógica, imune a prorrogações e disputas de pênaltis. No xadrez, é praticamente uma vitória das pretas, assim como no futebol é de quem jogou fora de casa, ou de quem perdia até o último minuto.

O que lamento no futebol de hoje é o fenômeno de superprofissionalização. Que ele tenha se transformado num grande negócio, estupendamente lucrativo, é natural no contexto econômico. Porém isso gera uma expectativa irreal em relação a resultados. Uma coisa é uma empresa exigir máxima eficiência de seus funcionários, outra é exigir, dos mesmos funcionários, a vitória num jogo. Essa idéia supervalorizou o trabalho dos treinadores, que tiveram seus proventos majorados em demasia nos últimos anos — é deles que se espera uma estratégia infalível para que os também onerosos atletas sejam bem aproveitados.

O fato é que a prática já demonstrou que o desenrolar de uma partida de futebol é como o desenrolar de uma batalha para o russo Tolstoi. Tolstoi viveu no século XIX e não conheceu o futebol. Para ele, “campanha” era um período de guerra do exército, e o inverno russo que derrotou os franceses foi uma tremenda sorte (dos russos). De fato, esse escritor dedicou um grande capítulo de seu clássico Guerra e paz para explicar a quase absoluta inutilidade dos generais depois que seus comandados mergulhavam na luta. Comentando o poder das guerrilhas em enfrentamentos de caráter popular, exaltou o “estado de espírito” dos guerreiros (militares ou não) como primordial. Nas frentes, os combatentes experimentam novas condições psicológicas, e inevitavelmente são também vítimas de ocorrências acidentais. Acaso e força de vontade fazem a diferença, e podem até dar a vitória ao lado inferiorizado em número.

Os comandantes podem pensar com orgulho que, organizando táticas e dispondo estratégias, jogam uma partida de xadrez; na verdade, disputam um jogo de futebol, cujos técnicos também perdem o controle do que acontece no campo depois que grandes oportunidades se esvaecem nas traves ou nas mãos do goleiro adversário. A pequenos acidentes cabe costumeiramente a inversão de certos resultados. Até infrações às regras podem ser decisivas — nos campos de batalha como nas batalhas em campos — quando acontecem falhas na arbitragem: nem a esse tipo de evento a sorte dos treinadores está imune. Não espanta que um estudo de doutoramento sobre a linguagem relacionada ao futebol tenha levantado o enorme número de vezes em que a palavra “sorte” é empregada em seus meios (pela imprensa e pelos próprios profissionais).