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Lobato, branco de alma negra?

A imagem acima é de uma escola infantil de São Paulo que fica numa avenida bem movimentada. Dentre as caricaturas coloridas de bons escritores nacionais, está a de Monteiro Lobato, há muito tempo pichada e não restaurada.

Esse vandalismo representa um novo tipo de intolerância que exige que as pessoas sejam completamente perfeitas.

Monteiro Lobato, como intelectual, fez uma obra fascinante que mostra seu repúdio à marginalização dos negros. Basta ver alguns contos do livro Negrinha.

O primeiro, que dá título ao volume, é o relato sensível e emocionante de uma filha de escrava a quem não era dado o direito de brincar. Ele procura despertar a nossa empatia em relação a uma figura claramente injustiçada. Já no conto ”O jardineiro Timóteo”, o protagonista é um grande artista da jardinagem, um poeta que acaba tendo de se revoltar contra a insensibilidade representada pela opressão dos brancos.

Na mesma obra em que traz essa crítica social, Lobato mostra que sua preocupação é com o sofrimento do ser humano, não importa a classe, a cor ou o gênero. Se no primeiro conto temos uma mulher pobre e negra como vítima da sociedade, em “O drama da geada” temos um belo trabalho de contradições, em que um rico fazendeiro branco é que emociona o leitor ao ter sua plantação devastada.

Quem picha Monteiro Lobato deveria aprender especialmente com o conto “Duas cavalgaduras”, um dos melhores exemplares de história contra a praga do maniqueísmo. Ele ri de si mesmo e sabe reconhecer seus erros, uma grandeza infrequente naqueles que fazem julgamentos definitivos e tão superficiais.

O autor ainda mostra mais de sua versatilidade e capacidade com outros contos incríveis, como o divertido “A facada imortal”, o otimista “Sorte grande”, o espiritualista “Os negros”, o sombrio “Bugio moqueado” e o intenso “As fitas da vida”.

Se eu terminasse a postagem aqui, o moderno maniqueísta padrão me acusaria (se é que ele terá lido a obra de Lobato) de “omitir” os lapsos linguísticos do autor em algumas dessas histórias — como a de um narrador elogiar um negro dizendo-o “branco por dentro”. Mas este é um problema marginal. Transparece aqui, sem dúvida, um racismo implícito na linguagem de seu cotidiano. O questionamento dessas armadilhas da expressão é um fenômeno mais recente. Lobato fala como sua sociedade falava. A civilização é um constante aprendizado.

A prova do não racismo de Lobato é que em essência, como já demonstrado, suas obras condenavam explicitamente o racismo.

Para não me alongar desnecessariamente, recomendo este texto mais extenso, no blog do Luis Nassif, e também esta breve apresentação na SBPC sobre a questão.