Com Celia Bermejo e Pedro G. de las Heras, atores espanhóis de "O fim de todos os milagres"

O que é ser um escritor “brasileiro”?

Em outubro de 2015, algumas peças brasileiras contemporâneas foram apresentadas ao público espanhol em Madri. (Na foto, estou com Celia Bermejo e Pedro G. de las Heras, artistas que atuaram em meu texto O fim de todos os milagres.) Os autores presentes (tive a ótima companhia de Pedro Brício e Silvia Gomez) tiveram algumas conferências com público e estudantes de Teatro. Levei comigo, para leitura, o texto abaixo, que gostaria de compartilhar também com o público brasileiro.

Hoje estou aqui como um autor brasileiro. Minha peça foi escrita originalmente em português do Brasil, eu fui trazido pelo governo brasileiro e estou hospedado na Casa do Brasil.

Não tenho certeza do que significa ser brasileiro, para um europeu. O que eu sei é que existe, no próprio ambiente cultural do Brasil, uma certa obsessão pela busca de uma “brasilidade” em um povo que ainda está engatinhando na sua constituição como nação.

Minha avó, mãe de minha mãe, nasceu aqui na Espanha. Na província de Granada, na cidade de Salobreña. Seu sobrenome era Rodrigues. Todos os meus bisavós eram italianos. Ou seja, há apenas três gerações, minha família era inteiramente europeia. Eu falo uma língua europeia e meu sobrenome ainda é muito comum na Itália.

Pelo menos três escritores conhecidos como brasileiros mereciam maior conhecimento universal: Machado de Assis, Graciliano Ramos e Clarice Lispector. Clarice Lispector, a melhor escritora brasileira, nasceu na Ucrânia. Adoro esses autores, que criaram algumas das melhores obras que conheço, mas sempre contestei o fato de que, nas escolas do Brasil, exista uma insistência no ensino exclusivo de escritores nacionais, inclusive os menos importantes, em detrimento de obras essenciais da literatura universal. Por maior que seja a importância que se deva dar aos autores nacionais, infelizmente falta nas escolas e nos vestibulares brasileiros uma atenção às obras de Cervantes, Goethe, Kafka ou Dostoievski.

Não vou renegar meus hábitos e minha origem: sou brasileiro. Mas, por história e natureza, tenho uma sensibilidade europeia. Cresci lendo diversas literaturas. A brasileira foi apenas uma delas. Como escritor e pensador, em essência, minha nação é o ser humano.

Será que isso é bom para um brasileiro?

Tivemos no Brasil há algumas décadas um interessante autor que escreveu um romance com estilo semelhante ao de “As Mil e uma noites”, em que contava a história de um árabe que era um lendário prodígio em matemática. O nome do livro é “O homem que calculava”. Para publicá-lo, foi muito esperto: usou o pseudônimo Malba Tahan, criando até mesmo uma história para esse autor fictício, à maneira do poeta Fernando Pessoa e seus heterônimos. Fez isso porque um brasileiro não podia escrever sobre um tema universal, com ambientação árabe, e ainda assim receber atenção, a menos que jogasse esse jogo de falsas aparências. Dessa forma, com um bom livro, fez muito sucesso. Ainda hoje, há pessoas cultas no Brasil que não sabem que Malba Tahan era brasileiro.

Já cheguei a pensar em fazer o mesmo. Se pudesse voltar no tempo, em 2004, quando minha primeira peça de teatro foi dirigida por Antunes Filho, eu assumiria o nome Paolo Santoro, com “o” como na Itália, e me esconderia atrás de uma imagem de um moderno autor europeu.

Afinal, minha peça não fala de selva nem de sertão, não fala de seca nem de violência, não fala de fome, nem de futebol, nem de favela. Todos os temas têm seu lugar ao sol, mas no Brasil é extremamente difícil obter reconhecimento falando de filosofia e de existência, como fazem autores europeus — a menos que você traduza um europeu “legítimo” que toque nesses assuntos.

Ironicamente, talvez nem seja na Europa que encontrarei meu público. Será que um pobretão de país subdesenvolvido pode vir aqui querendo se irmanar com seus ídolos? Será que o público europeu também não vai me rotular e esperar, desse autor que vem do Brasil, os mesmo clichês? “O quê? Mas então você não escreveu sobre o Carnaval? Não escreveu sobre novelas de TV ou sobre a corrupção? Não escreveu sobre o verão tropical e suas misérias? Quem você pensa que é?”

Felizmente estou aqui num encontro de artistas, ou seja, pessoas que em primeiro lugar abrem mão de preconceitos para tentar enxergar o que cada coisa realmente é. Por fim, dedico a leitura de “El fin de todos los milagros” a todos os meus antepassados que saíram da Europa num período de grandes dificuldades e migraram para o Brasil, levando consigo o amor pela cultura e pela educação, que chegou até mim. Obrigado.

Entrevista para Revista Brasil com Z, da Espanha (8/outubro/2015)

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Matéria publicada na ocasião da leitura dramática da peça O fim de todos os milagres, em Madri.

Clique aqui para ler o texto de Juliana Bezerra na página original.

O teatro brasileiro contemporâneo chega a Madri. Após a apresentação do monólogo do ator Vinícius Piedade, três dramaturgos brasileiros – Sílvia Gomes, Pedro Brício e Paulo Santoro – terão suas peças lidas por atores espanhóis, integrantes do laboratório Rivas Cherifno teatro Valle-Inclán, dias 9,10 e 11 de outubro, às 19h. Os ingressos custam 3 euros.

A iniciativa tem o apoio da Embaixada do Brasil, da Fundação Cultural Hispano-Brasileira, Casa do Brasil e do Centro Dramático Nacional e faz parte do projeto “Una mirada al mundo”, cujo objetivo é dar a conhecer novos autores do cenário internacional. Em entrevista na Casa do Brasil, os três autores falaram sobre a expectativa de apresentar textos brasileiros na Espanha, da cena teatral brasileira atual e dos avances sociais e culturais do Brasil nos últimos quinze anos.

Qual é expectativa de vocês em mostrar essas peças na Espanha?

Paulo Santoro: Somos autores de um país que é visto do lado de fora com alguns clichês que podem levar o entendimento equivocado do Brasil, mas nós também somos muito europeus. Todos os meus bisavôs eram italianos e será que em duas gerações construímos o “brasileiro”?

Silvia Gomes: Eu sou fruto da miscigenação. Meu bisavô era negro e se casou com uma portuguesa e tenho índios na minha família. Eu venho de Minas, de Lavras, um lugar cercado de montanhas, onde existe uma repressão, um lugar calado, um silêncio. Minha obra é brasileira porque vem dessa especificidade, mas trata de questões universais, que poderiam ser lidas em qualquer lugar.

Pedro Brício: Minha peça também não fala especificamente do Brasil e acho isso bom porque vai quebrar essa expectativa das pessoas em relação ao país.

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Silvia Gomes, Paulo Santoro e Pedro Brício: autores apresentam suas obras no tetro Valle-Inclán.

Atualmente, quais temáticas são discutidas no teatro brasileiro?

Pedro: A própria questão da identidade brasileira é discutida pelo teatro hoje. Minha peça trata sobre relações amorosas na contemporaneidade, se passa no Rio de Janeiro, mas trata da memória, da expectativa que temos nos relacionamentos e do acaso.

Sílvia: A cena de dramaturgia no Brasil está viva e tem sido estimulado graças a projetos como o do Sesc, que reúnem dramaturgos. Temos gente que está discutindo desde as memórias da ditadura, política até questões existencialistas mais abertas. Existe uma questão que a dramaturgia tem que olhar ao redor e falar do que incomoda.

Como vocês avaliam as políticas culturais nos últimos quinze anos de governo?

Paulo: Nos últimos 15 anos tivemos incentivos para os novos autores, como o Antunes Filho, proliferam várias iniciativas que acabaram trazendo autores novos que antes só existiam potencialmente. Cada um desses autores tem sua história e vemos esta diversidade de temas.

Sílvia: A minha peça saiu do CPT, dirigido pelo Antunes Filho, no Sesc-SP e a partir dali foram publicadas e traduzidas, e por isso estamos aqui. Nós discutíamos frequentemente sobre a singularidade, que cada um tenha a sua voz, pois isso é muito difícil de conseguir.

Pedro: Muitas peças estão discutindo a realidade brasileira e a história do Brasil. Porque o interessante não é só o tema, mas a forma e a poética que o dramaturgo trabalha.

Isso abriu espaço para autores emergentes e grupos da periferia mostrarem sua arte. Como vocês veem este movimento?

Sílvia: Acho muito importante e maravilhoso que se tenha um lugar para estas pessoas e ver essas perguntas dos outros. Venho de uma cidade pequena onde não tinha teatro e por isso digo que o Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte mudou a minha vida.

Paulo: Conhecei recentemente as “Fábricas de cultura”, do estado de São Paulo, na Zona Leste da cidade, um espaço onde oferecem aulas de música, dança, teatro e várias outras oficinas. Acho que esse tipo de espaço vai propiciar o surgimento de novos artistas que falarão daquela realidade.

Pedro: É chato a gente ficar dependendo do poder público, mas no Brasil só 14% dos municípios tem um teatro, então nós precisamos de uma política de formação, porque o teatro serve não só para as pessoas virarem atores, é uma questão de formação humana. Nos 15 últimos anos isso melhorou, embora esteja longe de ser o cenário ideal e perfeito, mas melhorou. Infelizmente, nas crises, o primeiro corte é na cultura. Vi que isso não é muito diferente aqui na Espanha ou na França, onde também houve cortes na cultura.

Mas a questão do teatro no Brasil é que ele é muito pontual. Sempre foi feito mais pelos artistas do que pelo governo, pelas companhias como a Dulcina e o TBC, por exemplo. Não temos um grupo de teatro nacional como aqui na Espanha.

Paulo: É preciso notar é difícil falar de grande cultura num país que tinha um alto índice de analfabetismo há cinquenta anos. Se não for o governo que inclua essas pessoas, não será a iniciativa privada que o fará.

Sílvia: Eu tenho uma visão positiva, afinal, estamos aqui. Muita gente com educação não sabe o que faz um dramaturgo, por exemplo.

Pedro: Hoje em dia todo lugar tem uma tela e o teatro guarda ainda essa relação humanística, ao vivo, sem mediação da tela.

Em que projetos vocês estão trabalhando atualmente?

Sílvia: Estou indo para Escócia fazer uma residência de dramaturgia por duas semanas.

Paulo: Vou lançar um livro em novembro e tenho algumas peças que estão em fase de captação de verbas, inclusive a peça que será lida aqui, “O fim de todos os milagres”, que será dirigida pelo Eric Lenate (que também dirigiu a peça de Silvia Gomes).

Pedro: Acabei de dirigir um musical brasileiro, sobre Wilson Simonal, escrita por Nelson Motta e tive uma alegria enorme porque foi um sucesso de público. (Pedro está no elenco do filme “Muito homens num só”, que será exibido durante o NovoCine em novembro).