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Lobato, branco de alma negra?

A imagem acima é de uma escola infantil de São Paulo que fica numa avenida bem movimentada. Dentre as caricaturas coloridas de bons escritores nacionais, está a de Monteiro Lobato, há muito tempo pichada e não restaurada.

Esse vandalismo representa um novo tipo de intolerância que exige que as pessoas sejam completamente perfeitas.

Monteiro Lobato, como intelectual, fez uma obra fascinante que mostra seu repúdio à marginalização dos negros. Basta ver alguns contos do livro Negrinha.

O primeiro, que dá título ao volume, é o relato sensível e emocionante de uma filha de escrava a quem não era dado o direito de brincar. Ele procura despertar a nossa empatia em relação a uma figura claramente injustiçada. Já no conto ”O jardineiro Timóteo”, o protagonista é um grande artista da jardinagem, um poeta que acaba tendo de se revoltar contra a insensibilidade representada pela opressão dos brancos.

Na mesma obra em que traz essa crítica social, Lobato mostra que sua preocupação é com o sofrimento do ser humano, não importa a classe, a cor ou o gênero. Se no primeiro conto temos uma mulher pobre e negra como vítima da sociedade, em “O drama da geada” temos um belo trabalho de contradições, em que um rico fazendeiro branco é que emociona o leitor ao ter sua plantação devastada.

Quem picha Monteiro Lobato deveria aprender especialmente com o conto “Duas cavalgaduras”, um dos melhores exemplares de história contra a praga do maniqueísmo. Ele ri de si mesmo e sabe reconhecer seus erros, uma grandeza infrequente naqueles que fazem julgamentos definitivos e tão superficiais.

O autor ainda mostra mais de sua versatilidade e capacidade com outros contos incríveis, como o divertido “A facada imortal”, o otimista “Sorte grande”, o espiritualista “Os negros”, o sombrio “Bugio moqueado” e o intenso “As fitas da vida”.

Se eu terminasse a postagem aqui, o moderno maniqueísta padrão me acusaria (se é que ele terá lido a obra de Lobato) de “omitir” os lapsos linguísticos do autor em algumas dessas histórias — como a de um narrador elogiar um negro dizendo-o “branco por dentro”. Mas este é um problema marginal. Transparece aqui, sem dúvida, um racismo implícito na linguagem de seu cotidiano. O questionamento dessas armadilhas da expressão é um fenômeno mais recente. Lobato fala como sua sociedade falava. A civilização é um constante aprendizado.

A prova do não racismo de Lobato é que em essência, como já demonstrado, suas obras condenavam explicitamente o racismo.

Para não me alongar desnecessariamente, recomendo este texto mais extenso, no blog do Luis Nassif, e também esta breve apresentação na SBPC sobre a questão.

Com Celia Bermejo e Pedro G. de las Heras, atores espanhóis de "O fim de todos os milagres"

O que é ser um escritor “brasileiro”?

Em outubro de 2015, algumas peças brasileiras contemporâneas foram apresentadas ao público espanhol em Madri. (Na foto, estou com Celia Bermejo e Pedro G. de las Heras, artistas que atuaram em meu texto O fim de todos os milagres.) Os autores presentes (tive a ótima companhia de Pedro Brício e Silvia Gomez) tiveram algumas conferências com público e estudantes de Teatro. Levei comigo, para leitura, o texto abaixo, que gostaria de compartilhar também com o público brasileiro.

Hoje estou aqui como um autor brasileiro. Minha peça foi escrita originalmente em português do Brasil, eu fui trazido pelo governo brasileiro e estou hospedado na Casa do Brasil.

Não tenho certeza do que significa ser brasileiro, para um europeu. O que eu sei é que existe, no próprio ambiente cultural do Brasil, uma certa obsessão pela busca de uma “brasilidade” em um povo que ainda está engatinhando na sua constituição como nação.

Minha avó, mãe de minha mãe, nasceu aqui na Espanha. Na província de Granada, na cidade de Salobreña. Seu sobrenome era Rodrigues. Todos os meus bisavós eram italianos. Ou seja, há apenas três gerações, minha família era inteiramente europeia. Eu falo uma língua europeia e meu sobrenome ainda é muito comum na Itália.

Pelo menos três escritores conhecidos como brasileiros mereciam maior conhecimento universal: Machado de Assis, Graciliano Ramos e Clarice Lispector. Clarice Lispector, a melhor escritora brasileira, nasceu na Ucrânia. Adoro esses autores, que criaram algumas das melhores obras que conheço, mas sempre contestei o fato de que, nas escolas do Brasil, exista uma insistência no ensino exclusivo de escritores nacionais, inclusive os menos importantes, em detrimento de obras essenciais da literatura universal. Por maior que seja a importância que se deva dar aos autores nacionais, infelizmente falta nas escolas e nos vestibulares brasileiros uma atenção às obras de Cervantes, Goethe, Kafka ou Dostoievski.

Não vou renegar meus hábitos e minha origem: sou brasileiro. Mas, por história e natureza, tenho uma sensibilidade europeia. Cresci lendo diversas literaturas. A brasileira foi apenas uma delas. Como escritor e pensador, em essência, minha nação é o ser humano.

Será que isso é bom para um brasileiro?

Tivemos no Brasil há algumas décadas um interessante autor que escreveu um romance com estilo semelhante ao de “As Mil e uma noites”, em que contava a história de um árabe que era um lendário prodígio em matemática. O nome do livro é “O homem que calculava”. Para publicá-lo, foi muito esperto: usou o pseudônimo Malba Tahan, criando até mesmo uma história para esse autor fictício, à maneira do poeta Fernando Pessoa e seus heterônimos. Fez isso porque um brasileiro não podia escrever sobre um tema universal, com ambientação árabe, e ainda assim receber atenção, a menos que jogasse esse jogo de falsas aparências. Dessa forma, com um bom livro, fez muito sucesso. Ainda hoje, há pessoas cultas no Brasil que não sabem que Malba Tahan era brasileiro.

Já cheguei a pensar em fazer o mesmo. Se pudesse voltar no tempo, em 2004, quando minha primeira peça de teatro foi dirigida por Antunes Filho, eu assumiria o nome Paolo Santoro, com “o” como na Itália, e me esconderia atrás de uma imagem de um moderno autor europeu.

Afinal, minha peça não fala de selva nem de sertão, não fala de seca nem de violência, não fala de fome, nem de futebol, nem de favela. Todos os temas têm seu lugar ao sol, mas no Brasil é extremamente difícil obter reconhecimento falando de filosofia e de existência, como fazem autores europeus — a menos que você traduza um europeu “legítimo” que toque nesses assuntos.

Ironicamente, talvez nem seja na Europa que encontrarei meu público. Será que um pobretão de país subdesenvolvido pode vir aqui querendo se irmanar com seus ídolos? Será que o público europeu também não vai me rotular e esperar, desse autor que vem do Brasil, os mesmo clichês? “O quê? Mas então você não escreveu sobre o Carnaval? Não escreveu sobre novelas de TV ou sobre a corrupção? Não escreveu sobre o verão tropical e suas misérias? Quem você pensa que é?”

Felizmente estou aqui num encontro de artistas, ou seja, pessoas que em primeiro lugar abrem mão de preconceitos para tentar enxergar o que cada coisa realmente é. Por fim, dedico a leitura de “El fin de todos los milagros” a todos os meus antepassados que saíram da Europa num período de grandes dificuldades e migraram para o Brasil, levando consigo o amor pela cultura e pela educação, que chegou até mim. Obrigado.

Entrevista para Revista Brasil com Z, da Espanha (8/outubro/2015)

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Matéria publicada na ocasião da leitura dramática da peça O fim de todos os milagres, em Madri.

Clique aqui para ler o texto de Juliana Bezerra na página original.

O teatro brasileiro contemporâneo chega a Madri. Após a apresentação do monólogo do ator Vinícius Piedade, três dramaturgos brasileiros – Sílvia Gomes, Pedro Brício e Paulo Santoro – terão suas peças lidas por atores espanhóis, integrantes do laboratório Rivas Cherifno teatro Valle-Inclán, dias 9,10 e 11 de outubro, às 19h. Os ingressos custam 3 euros.

A iniciativa tem o apoio da Embaixada do Brasil, da Fundação Cultural Hispano-Brasileira, Casa do Brasil e do Centro Dramático Nacional e faz parte do projeto “Una mirada al mundo”, cujo objetivo é dar a conhecer novos autores do cenário internacional. Em entrevista na Casa do Brasil, os três autores falaram sobre a expectativa de apresentar textos brasileiros na Espanha, da cena teatral brasileira atual e dos avances sociais e culturais do Brasil nos últimos quinze anos.

Qual é expectativa de vocês em mostrar essas peças na Espanha?

Paulo Santoro: Somos autores de um país que é visto do lado de fora com alguns clichês que podem levar o entendimento equivocado do Brasil, mas nós também somos muito europeus. Todos os meus bisavôs eram italianos e será que em duas gerações construímos o “brasileiro”?

Silvia Gomes: Eu sou fruto da miscigenação. Meu bisavô era negro e se casou com uma portuguesa e tenho índios na minha família. Eu venho de Minas, de Lavras, um lugar cercado de montanhas, onde existe uma repressão, um lugar calado, um silêncio. Minha obra é brasileira porque vem dessa especificidade, mas trata de questões universais, que poderiam ser lidas em qualquer lugar.

Pedro Brício: Minha peça também não fala especificamente do Brasil e acho isso bom porque vai quebrar essa expectativa das pessoas em relação ao país.

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Silvia Gomes, Paulo Santoro e Pedro Brício: autores apresentam suas obras no tetro Valle-Inclán.

Atualmente, quais temáticas são discutidas no teatro brasileiro?

Pedro: A própria questão da identidade brasileira é discutida pelo teatro hoje. Minha peça trata sobre relações amorosas na contemporaneidade, se passa no Rio de Janeiro, mas trata da memória, da expectativa que temos nos relacionamentos e do acaso.

Sílvia: A cena de dramaturgia no Brasil está viva e tem sido estimulado graças a projetos como o do Sesc, que reúnem dramaturgos. Temos gente que está discutindo desde as memórias da ditadura, política até questões existencialistas mais abertas. Existe uma questão que a dramaturgia tem que olhar ao redor e falar do que incomoda.

Como vocês avaliam as políticas culturais nos últimos quinze anos de governo?

Paulo: Nos últimos 15 anos tivemos incentivos para os novos autores, como o Antunes Filho, proliferam várias iniciativas que acabaram trazendo autores novos que antes só existiam potencialmente. Cada um desses autores tem sua história e vemos esta diversidade de temas.

Sílvia: A minha peça saiu do CPT, dirigido pelo Antunes Filho, no Sesc-SP e a partir dali foram publicadas e traduzidas, e por isso estamos aqui. Nós discutíamos frequentemente sobre a singularidade, que cada um tenha a sua voz, pois isso é muito difícil de conseguir.

Pedro: Muitas peças estão discutindo a realidade brasileira e a história do Brasil. Porque o interessante não é só o tema, mas a forma e a poética que o dramaturgo trabalha.

Isso abriu espaço para autores emergentes e grupos da periferia mostrarem sua arte. Como vocês veem este movimento?

Sílvia: Acho muito importante e maravilhoso que se tenha um lugar para estas pessoas e ver essas perguntas dos outros. Venho de uma cidade pequena onde não tinha teatro e por isso digo que o Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte mudou a minha vida.

Paulo: Conhecei recentemente as “Fábricas de cultura”, do estado de São Paulo, na Zona Leste da cidade, um espaço onde oferecem aulas de música, dança, teatro e várias outras oficinas. Acho que esse tipo de espaço vai propiciar o surgimento de novos artistas que falarão daquela realidade.

Pedro: É chato a gente ficar dependendo do poder público, mas no Brasil só 14% dos municípios tem um teatro, então nós precisamos de uma política de formação, porque o teatro serve não só para as pessoas virarem atores, é uma questão de formação humana. Nos 15 últimos anos isso melhorou, embora esteja longe de ser o cenário ideal e perfeito, mas melhorou. Infelizmente, nas crises, o primeiro corte é na cultura. Vi que isso não é muito diferente aqui na Espanha ou na França, onde também houve cortes na cultura.

Mas a questão do teatro no Brasil é que ele é muito pontual. Sempre foi feito mais pelos artistas do que pelo governo, pelas companhias como a Dulcina e o TBC, por exemplo. Não temos um grupo de teatro nacional como aqui na Espanha.

Paulo: É preciso notar é difícil falar de grande cultura num país que tinha um alto índice de analfabetismo há cinquenta anos. Se não for o governo que inclua essas pessoas, não será a iniciativa privada que o fará.

Sílvia: Eu tenho uma visão positiva, afinal, estamos aqui. Muita gente com educação não sabe o que faz um dramaturgo, por exemplo.

Pedro: Hoje em dia todo lugar tem uma tela e o teatro guarda ainda essa relação humanística, ao vivo, sem mediação da tela.

Em que projetos vocês estão trabalhando atualmente?

Sílvia: Estou indo para Escócia fazer uma residência de dramaturgia por duas semanas.

Paulo: Vou lançar um livro em novembro e tenho algumas peças que estão em fase de captação de verbas, inclusive a peça que será lida aqui, “O fim de todos os milagres”, que será dirigida pelo Eric Lenate (que também dirigiu a peça de Silvia Gomes).

Pedro: Acabei de dirigir um musical brasileiro, sobre Wilson Simonal, escrita por Nelson Motta e tive uma alegria enorme porque foi um sucesso de público. (Pedro está no elenco do filme “Muito homens num só”, que será exibido durante o NovoCine em novembro).

 

 

Blog Tolstoi

Quando Tolstoi jogou Futebol [Do Passado]

[Do Passado] são textos que escrevi há muito tempo.

Este abaixo é de 1995… não fiz nenhuma alteração, vai como está! :-)

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O futebol é um fenômeno cultural curioso: adorado em quase todas as nações, é desprezado na mais desenvolvida de todas — os Estados Unidos. Recente episódio de Os Simpsons ironizou cruelmente o soccer, ressaltando seus empates e escores baixos. No desenho, diante de uma partida caricatamente chata, os torcedores, enfastiados, resolveram se divertir brigando — provável alusão irônica aos famosos tumultos em estádios da Europa.

Se os americanos ironizam os placares baixos (e que triste sina o zero a zero na decisão da Copa de 94!), em contrapartida o mundo todo deve exatamente a isso a adoração que tem pelo esporte. Afinal, a meta é difícil, e sua conquista muito mais empolgante. Também aplaudo a possibilidade de empate. Futebol e xadrez são, pessoalmente, meus jogos preferidos: exatamente os únicos que têm o empate em suas regras. No futebol, é uma decorrência inevitável da dificuldade do gol e do tempo fixo; no xadrez, uma possibilidade lógica, imune a prorrogações e disputas de pênaltis. No xadrez, é praticamente uma vitória das pretas, assim como no futebol é de quem jogou fora de casa, ou de quem perdia até o último minuto.

O que lamento no futebol de hoje é o fenômeno de superprofissionalização. Que ele tenha se transformado num grande negócio, estupendamente lucrativo, é natural no contexto econômico. Porém isso gera uma expectativa irreal em relação a resultados. Uma coisa é uma empresa exigir máxima eficiência de seus funcionários, outra é exigir, dos mesmos funcionários, a vitória num jogo. Essa idéia supervalorizou o trabalho dos treinadores, que tiveram seus proventos majorados em demasia nos últimos anos — é deles que se espera uma estratégia infalível para que os também onerosos atletas sejam bem aproveitados.

O fato é que a prática já demonstrou que o desenrolar de uma partida de futebol é como o desenrolar de uma batalha para o russo Tolstoi. Tolstoi viveu no século XIX e não conheceu o futebol. Para ele, “campanha” era um período de guerra do exército, e o inverno russo que derrotou os franceses foi uma tremenda sorte (dos russos). De fato, esse escritor dedicou um grande capítulo de seu clássico Guerra e paz para explicar a quase absoluta inutilidade dos generais depois que seus comandados mergulhavam na luta. Comentando o poder das guerrilhas em enfrentamentos de caráter popular, exaltou o “estado de espírito” dos guerreiros (militares ou não) como primordial. Nas frentes, os combatentes experimentam novas condições psicológicas, e inevitavelmente são também vítimas de ocorrências acidentais. Acaso e força de vontade fazem a diferença, e podem até dar a vitória ao lado inferiorizado em número.

Os comandantes podem pensar com orgulho que, organizando táticas e dispondo estratégias, jogam uma partida de xadrez; na verdade, disputam um jogo de futebol, cujos técnicos também perdem o controle do que acontece no campo depois que grandes oportunidades se esvaecem nas traves ou nas mãos do goleiro adversário. A pequenos acidentes cabe costumeiramente a inversão de certos resultados. Até infrações às regras podem ser decisivas — nos campos de batalha como nas batalhas em campos — quando acontecem falhas na arbitragem: nem a esse tipo de evento a sorte dos treinadores está imune. Não espanta que um estudo de doutoramento sobre a linguagem relacionada ao futebol tenha levantado o enorme número de vezes em que a palavra “sorte” é empregada em seus meios (pela imprensa e pelos próprios profissionais).

Historemas-post

Leia Historemas — começa hoje!

Anuncio hoje o início da publicação de minhas HISTOREMAS.

Toda terça um texto em historemas. com, maior que um tuíte, menor que um conto: um pedaço básico de história.

Sem títulos individuais, cada historema tem seu próprio tema, seu próprio tempo, seu próprio narrador.

O n.1 foi levemente inspirado numa notícia recente: a morte de um jovem pelo excessivo consumo de álcool.

Capa catarse

O QUE APRENDI SOBRE A LONGEVIDADE AO ESCREVER MEU ROMANCE

“Quando agem moralmente, os seres humanos estão em certo sentido agindo como se fossem imortais.” (Marc Geddes, “An introduction to immortalist morality”)
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Quando Chico Anysio estava doente, com pouco tempo de vida, deu a seguinte declaração em uma entrevista: “Eu não tenho medo de morrer. Eu tenho pena.”

 

Não é difícil compreender o sentido dessa declaração. Chico Anysio foi um artista, um grande criador: homem que trabalhou a vida inteira escrevendo e atuando, aprendendo novas maneiras de fazer humor, elaborando mais e mais personagens, construindo, enfim, não somente um invejável repertório, mas uma história atrás de si. Dá pena de morrer: pena de enterrar toda essa experiência única de vida, esse talento, essa ânsia de brincar e descobrir.

 

Alguns cientistas, loucos ou visionários, trabalham ativamente em formas de estender o tempo de vida dos seres humanos. Mas nós já não estamos ganhando uma expectativa de vida cada vez maior? Para responder, permitam-me citar uma fala do personagem Bruno Boden, que explica a sua investigação científica para uma colega no meu romance A vida longa dos vermes:
Meu campo de pesquisa não tem relação com a expectativa de vida, na verdade. A expectativa de vida é um valor médio, que vem aumentando muito nos últimos cem anos em decorrência do saneamento básico e das descobertas mais fundamentais da Medicina, como os antibióticos e as vacinas. Mas o tempo de vida possível não se alterou. Por exemplo: há dois séculos já existiam pessoas que passavam de cem anos, porém eram poucas. Em um mundo onde tanta gente morria antes dos quarenta ou mesmo dos trinta anos de idade, a média acabava sendo baixa. Ou seja, o fenômeno que estamos observando agora é que cada vez mais gente sobrevive por várias décadas, o que aumenta a média geral.
Para sermos precisos: a expectativa de vida era de 25 anos no auge do Império Romano, de 30 na Idade Média, de 33 no Renascimento, chegando a 47 no começo do século XX, e a 76 no seu final.Assim, o que presenciamos hoje é que cada vez mais pessoas têm chances de viver bastante, até mesmo passando dos cem anos, e com boa saúde. Mas, por enquanto, nenhuma delas pode ter a fantasia de vencer a fronteira dos 110 anos, um limite que ainda é raro de ser ultrapassado.
É nesta batalha que entra o visionário (ou louco?) Aubrey de Grey. Trata-se de um biólogo inglês, que se dedica tanto à causa da imortalidade que nem tem tempo de cortar a barba (ou então ele simplesmente já resolveu aderir a um estilo Matusalém). Alguns cientistas o acusam de vender ilusões. Pode ser verdade, mas grandes descobertas saíram de mentalidades inconformadas como a dele. E, claro, ele não está por aí vendendo elixires. Procura trabalhar com outros cientistas britânicos que o respeitam, certo de que a multidisciplinaridade é essencial para alcançar seus objetivos.Mas quais são esses objetivos? Não adianta manter a vida se não houver saúde. O protagonista das Viagens de Gulliver descobriu essa verdade em sua fantástica excursão pela fantástica Luggnagg, terra onde viviam os struldbrugs. Eram seres imortais. Gulliver, junto com o leitor, pensa que são as criaturas mais bem-aventuradas do planeta, mas lhe explicam que é justamente o contrário. Aos duzentos anos, um pobre struldbrug é a personificação da senilidade encarquilhada, curvado, cheio de dores, um poço de misérias. Não morria, mas não parava nunca de envelhecer.O desafio, portanto, é deter o envelhecimento. Aubrey de Grey fala sobre suas reflexões no livro Ending aging [Parando o envelhecimento], de 2007, mas uma abordagem mais acessível dessas ideias pode ser encontrada em outra obra, Long for this world [Um anseio por este mundo], de Jonathan Weiner, cujo título, como se vê, desvela as profundas motivações do utópico cientista inglês.É evidente que não começou ontem essa busca do rejuvenescimento. Foi encontrado um papiro egípcio que tinha a receita para um creme antirrugas! Da mitologia de Gilgamesh aos sonhos de Ponce de León e dos alquimistas, a mágica da juventude sempre deslumbrou as aspirações humanas.

 

Mas foi no século XX que as tentativas começaram a ser, pelo menos até certo ponto, mais científicas. O neurologista britânico Brown-Séquard, no fim do XIX, foi o primeiro a falar em “rejuvenation”, chegando a tomar extratos de testículos de certos animais com o propósito de viver mais tempo. O fisiologista Eugen Steinach prosseguiu nessa linha, transplantando testículos de macacos em homens — e homens célebres: Yeats, e mesmo Freud, foram steinachados. Os cientistas envolvidos nessas experiências se tornaram importantes para a história da medicina, pioneiros da endocrinologia. Os procedimentos eram coerentes com seu tempo — mas foram esquecidos.

 

Houve um debate intenso sobre se existe ou não uma necessidade de morrer, no aspecto evolutivo. Ou seja, sobre se a morte do indivíduo é boa ou não para toda a espécie.

 

Para o biólogo August Weismann, “morrer é um sacrifício que cada geração deve fazer pela próxima”, pois a morte elimina os indivíduos em um tempo médio depois do qual eles já se tornaram ruins para a espécie.

 

Mas Peter Medawar, vencedor do Prêmio Nobel, contestou essa análise apontando que a seleção natural se aplica apenas aos indivíduos ainda jovens. Sendo assim, não existe uma razão evolutiva para o envelhecimento. Ele pode ser enfrentado sem, a princípio, nenhum grande risco biológico para a espécie.

 

Nem mesmo é necessariamente natural que um ser vivo pereça. A incrível hydra, que é considerada imortal, demonstra essa tese. Em quatro anos, cada indivíduo dessa espécie repõe seu corpo inteiro cerca de sessenta vezes.

 

A ideia fundamental dos combatedores do envelhecimento é tratá-lo cientificamente como uma doença, que talvez possa ser curada.

 

O biólogo Robin Holliday, que faleceu no início de 2014, não achava essa perspectiva razoável. Para ele, existem tantas coisas simultâneas que causam o envelhecimento que essa batalha seria como a luta de Hércules contra a Hidra (falando agora da criatura mitológica): são cabeças demais para matar, e nascem duas para cada uma que se corta.

 

Mas nem sempre objeções teóricas permanecem vivas na prática. Os pesquisadores da imortalidade descobriram que o envelhecimento é causado, em essência, pelo grande acúmulo de lixo dentro das células, material que vai se juntando com o passar dos anos e prejudicando o funcionamento normal do organismo. Aos 50 anos de idade, por exemplo, 20% de determinadas células oculares já são lixo.

 

Essa limpeza celular é o principal foco atual dos pesquisadores que não desejam morrer. Ferramentas de clonagem e até o uso de nanorobôs estão sendo experimentados para essa tarefa. Serão bem-sucedidos?

 

Aubrey de Grey espera, pelo menos, que as pesquisas nos tragam algum saldo de vida. Não é necessário criar, de uma vez, a pílula dos mil anos: se cada 10 anos de pesquisa nos concederem pelo menos 11 a mais de vida saudável, entraremos num círculo virtuoso que poderá nos levar a um tempo indeterminado de existência.

 

Esse assunto fascinante me estimulou a escrever meu primeiro romance, A vida longa dos vermes, que imagina como um cientista brasileiro dos tempos atuais realizou uma grande descoberta contra o envelhecimento e relata os fatos inacreditáveis que se sucederam.

 

Esse romance está passando por uma etapa de financiamento coletivo no site catarse.me. É uma tendência importante, que provê mais independência e mais retorno para os autores!

 

Quem decide o que vai acontecer no mercado é você, leitor. O romance será lançado?

 

Entre neste link e saiba como funciona: catarse.me/vidalonga.