PREÂMBULO DE GREGÓRIO

Texto do saudoso Sebastião Milaré, publicado em 2004 na sua revista digital AntaProfana, sobre o espetáculo O canto de Gregório. Link para o original.

Perdido nos labirintos da lógica formal, Gregório se bate inutilmente em busca do conhecimento de si mesmo. Segue pelo atoleiro dos princípios e dos conceitos até o ponto-limite do absurdo, quando cego pelo frio clarão da lua, deixa seu dedo indicador apertar o gatilho, indo o projétil se alojar no peito de um cidadão.

Há nesse fio de história, através do qual se arma a estrutura de “O Canto de Gregório”, reminiscências de antigas obras literárias, que bem podem ter inspirado o autor. No programa de mão do espetáculo são explicitadas algumas, como o “Cândido” de Voltaire ou “O Estrangeiro” de Camus, além de referências à alquimia, Dostoievski e Virgílio. E todas as referências são de absoluta pertinência ao tema, ao texto e à poética do encenador; estando todas elas, objetiva ou subjetivamente, vinculadas à trama filosófica da peça de Paulo Santoro. Por um ponto de vista subjetivo, que a feira-livre pós-moderna da obra não apenas admite, mas solicita, entendo de juntar aí o Zaratustra do Nietzsche. Não o Zaratustra já em pleno poder de se comunicar com os vivos, não: apenas o seu preâmbulo, entre o momento em que desce da montanha para falar aos vivos e o momento em que só lhe resta carregar um morto às costas. Assim foi o preâmbulo de Zaratustra.

Gregório proclama que “a dor sem saída provocada por um paradoxo é eterna”. Afirmou, pouco antes, que o ato de pensar o coloca acima das emoções. Voando alto, o pensamento vê lá de cima as emoções rasteiras, em seus labirintos. E nesse vão aberto entre o pensamento e as emoções, entram e se aniquilam as sensações e a fé. Vai emergindo a consciência do ser humano naturalmente bipartido: “Minhas lágrimas não me comovem”. Bipartido, neste mundo material, o ser humano é fatalmente açoitado pelo seu próprio intelecto, dolorosamente paralisado pela lógica. Isto se passa com Gregório. De nada adiantou Jesus adverti-lo que “dar a outra face é uma direção propícia para os homens” e que Deus é de outra dimensão, onde “não existem mesas nem cadeiras”. Para tudo ele busca a explicação lógica… Mas, a exemplo do feitiço que se volta contra o feiticeiro, a lógica o devora e deixa cada vez mais distante qualquer resposta plausível, para o que quer que seja. Gregório propõe a lógica como instrumento de comunicação com os vivos, mas é quatro vezes aprisionado nas armadilhas de um ilustre morto, Sócrates, e termina por “fazer” um novo morto, no momento em que o seu indicador acionou o gatilho e o projétil perdido encontrou o peito daquele cidadão. Dedicará o seu raciocínio lógico, a partir daí, ao acaso que o tornou assassino, embora pouco importa quem tenha sido morto. Assim foi o preâmbulo de Gregório.

Afirma Zaratustra que o homem é a ponte estendida entre o animal e o Super-homem. O Super-homem é o sentido da terra, sendo o homem uma passagem, um simples acabamento. Todavia, para chegar à condição de Super-homem é necessário ao homem superar-se a si mesmo e tornar-se o mar no qual abismará o grande menosprezo. E como ninguém o quer ouvir, Zaratustra mostra ao povo o “último homem”, cuja raça é indestrutível como a da pulga. O “último homem” procura agradáveis sonhos no veneno e se crê descobridor da felicidade, embora caminhe paralelamente à infelicidade e incontáveis vezes nela chafurda, na sua cotidiana monotonia.

Embora se esforce no sentido do autoconhecimento, Gregório perde-se por descaminhos lógicos, por dolorosos paradoxos, concluindo que a bondade é logicamente impossível e que é igual a uma escultura abstrata: nada tem a ver com a vida que se faz no dia-a-dia, ao sabor das circunstâncias. Longe de superar-se e de se tornar um Super-homem, em vista dos seus raciocínios materialistas e por estar vinculado a uma ética mecânica, desumana, Gregório junta-se como igual aos “últimos homens”. Mas, não! Nem isso lhe ocorre. Apenas caiu no círculo vicioso de seu próprio raciocínio, absolutamente alheio aos caminhos do coração, quando até o descaminho do “último homem” é feito no coração. E ao ver-se com o revólver na mão, acredita que Deus lhe tenha dado a infinita oportunidade de experimentar o mal. Agindo ao sabor das circunstâncias, para saber se o mal é realmente o pior dos mundos, disparou duas vezes. Mais tarde diria que a lua cheia iluminou-lhe a cara e o brilho nublou seus olhos molhados.

Sentindo-se atravessado de luz, Zaratustra percebe que necessita de companheiros, mas vivos. É a companheiros e não à multidão que deve falar. E foi assim que começou o ocaso de Zaratustra, preenchido por seus discursos cheios de dragões, virtudes e transgressões às normas comuns, com a ação vertiginosa agitando o limite do anunciado Super-homem.

O ocaso de Gregório é a escuridão do entendimento. Responde à pergunta óbvia do promotor, sobre os motivos que o teriam levado a matar o desconhecido cidadão, ter sido o ato “uma atitude sem razão”. Ao que o promotor retruca que para matar uma pessoa é preciso ter uma razão. A isso Gregório responde com poderoso argumento: “Para matar alguém é preciso faltar com toda a razão”. Esse argumento poderia redimi-lo e dar-lhe passagem ao Super-homem. Mas, o pobre é irredimível, porque não larga a sua rapadura: a lógica. Mesmo ao Buda busca cativar para si… explicando logicamente um koan. Ele é todo pensamento, e Buda demonstra-lhe compaixão: “Assim é o seu pensamento: as idéias pesam mais do que concreto…” Homem de pedra, como um castelo ou uma prisão, justificando a deliberação do júri e a sentença anunciada pelo Meritíssimo. Está Gregório condenado a viver “agrilhoado ao corpo material que precisa carregar por este chão”.

E nessa prisão fatídica seu pensamento desespera. Procura uma compreensão de si mesmo, para concluir que “o conhecimento era uma mentira”. Com horror descobre que sequer existe. Que nunca existiu! Como não existe o tempo, como não existe o ser.

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Paulo Santoro, pensando em exprimir questões da vida contemporânea que distanciam o ser humano da condição de “ser” humano, teceu a trama através da lógica formal e de vertentes filosóficas positivistas. Não para exaltar a lógica formal e o positivismo, mas para transformá-los na expressão crítica de toda uma civilização (ocidental) que se edificou embebida deles e hoje se encontra desentendida e perplexa.

Por assim ver esse texto, anunciador de catástrofes e tão bem humorado, ocorreu-me a leitura paralela de Gregório com o Zaratustra, justo por serem opostos os heróis. Gregório não é o “último dos homens” e jamais chegará a Super-homem, porque não tem verdadeira humanidade. Ou, se preferirem, não tem “psicologia”. É um estereótipo, não um arquétipo. Teatralmente, no entanto, ele ostenta o valor dos personagens alegóricos dos autos medievais, eis sua força: é exemplar! Como manifestação emblemática, ele está presente em toda corporação, em todo sindicato, em toda assembléia, espaços da sociedade humana onde melhor faz o seu teatro. Ele está também presente nas telenovelas, na cultura de massa em geral; está presente nos homens-bomba (e nas mulheres-bomba, é claro), nos presidiários amotinados, na violência dos morros cariocas, das ruas paulistanas, no sem número de conflitos bélicos deste Admirável Mundo Novo, onde assustados procuramos abrigo. Que mundo é esse? Quem sabe o pensamento unilateral e antidialético de Gregório seja o retrato hiperrealista de Bush, ou de Bin Laden?.. Nesse mundo existem “todas as razões” para se matar, justamente porque está faltando ao ser humano a razão. É por isso que se mata de todas as maneiras.

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A encenação de Antunes Filho, apoiada pela cenografia e direção de arte de J. C. Serroni, mostra os áridos e paradoxalmente poéticos discursos de Gregório nos termos de realidades cotidianas transformadas em arte. Deslinda em cena o mundo objetivo e subjetivo de Gregório, com suas abissais contradições – seja pela movimentação impecável dos atores, seja pela presença inquietante de bonecos e de objetos como malas grávidas de outras malas, ou de guarda-chuvas, que servem para espantar fantasmas. No decorrer de toda a ação cênica há sugestões misteriosas envolvendo cada gesto dos intérpretes, o que projeta sobre o protagonista (quase um boneco articulado) significados inefáveis, que o inflamam de paixão e o tornam um espelho no qual não se deve mirar. Como os personagens alegóricos dos autos medievais, Gregório constrói em nossa frente um espelho crítico e cruel. Ele reúne em sua construção tantos fragmentos de diferentes personalidades, que se torna impossível alguém não se identificar um pouquinho com ele. E Arieta Corrêa consegue dar unidade a esse ser, dando a humanidade que lhe falta, livrando-o da caricatura.

O elenco todo, na verdade, levanta a escada para Arieta Corrêa, mas não é jogo de “estrelas” e sim de companheiros, contadores de histórias, que contam suas histórias não só através de palavras, mas com todo o corpo. Desse elenco tão homogêneo, é possível destacar Juliana Galdino, por sua performance impagável como o Meretíssimo, e Carlos Morelli, como o promotor sarcástico, burocrático e persistente.

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NEWSLETTER DE JULHO – N. 3

Já saiu a newsletter n. 3!  Se você ainda não é assinante gratuito, clique aqui para ler!

Nela você encontra o artigo que escrevi sobre Alan Turing, um gênio para quem todos nós devemos muito!

Inclui também meu microconto “Rotação”.

Veja também na newsletter como concorrer ao livro O médico e o monstro.

Aproveito para informar a ganhadora do livro sorteado pela newsletter do mês passado: é a Maíra Franco Tangerino. Ela precisou de sorte, mas não muita, já que foram poucos os participantes. Pessoal! É um livro gratuito! É fácil participar! Acreditem! :-)

Capa vlog

VLOG – LIVRO O NOBRE DEPUTADO

Neste 1.o vídeo do meu vlog, falo sobre o livro “O nobre deputado: relato chocante (e verdadeiro) de como nasce, cresce e se perpetua um corrupto na política brasilera”, do autor Marlon Reis e publicado pela Editora Leya.

O livro tenta faturar no “mercado da desilusão” e apresenta uma realidade cínica e pessimista. Porém sofre com suas incoerências.

ditadura

O RÉU

Em 1984, numa manhã especialmente severa, a inspetora Ana Lídia recolheu-me à sala da direção junto com dois outros garotos do colégio. Havíamos nos atrasado alguns minutos no retorno do recreio para as salas de aula.

Não me recordo do nome do diretor, um senhor de bigode espesso, mas ele já nos esperava, sentado à sua escrivaninha. Teria 50 anos então? Um menino de 11 não saberia precisar. Morreria alguns anos depois.

Tolerei o sermão com seriedade. Sempre tive um respeito militar pelo poder, mais propriamente pela experiência que os anos esculpem nas pessoas — embora isso não se estenda a uma mera submissão diante da autoridade.

O discurso deve ter durado cerca de cinco minutos. Foi entremeado de silêncios, que sempre podem ser a deixa ou uma nova pausa. Observava seu rosto, mantinha-se a tensão de que voltaria à carga. Não elevou a voz em nenhum momento, mas o sentido todo da repreensão parecia-me exceder bastante a natureza da falta.

Em certo momento, entendi que encerrara. Meus colegas estavam em silêncio, e o diretor não nomeou nenhum de nós em especial para iniciar as explicações. Certamente não percebi que seu último olhar calado, antes de nos mandar assinar o livro negro, era ainda sua tarefa de admoestação. Então comecei a falar.

A voz saiu branda, mas não fui capaz de proferir três palavras. O diretor interrompeu-me, agora sim zangado, instituindo que eu não tinha direito a réplica alguma. Ele parecia sinceramente surpreso por eu ter aberto a boca.

Fiquei paralisado pelo choque de me ver sem direito a defesa. Escutei quieto a prorrogação de impropérios que minha audácia lhe havia concedido. Os outros meninos talvez estivessem aliviados, agora à margem da repressão, sentindo-se menos culpados, menos perigosos.

A inspetora Ana Lídia, que presenciara tudo, demonstrou a meus olhos um certo remorso. Cumpriu burocraticamente a função de nos levar a assinar o temido livro negro.

Eu pensava que sentiria alguma solenidade no coração ao traçar meu nome após a famigerada lista de moleques que eu com muita justiça detestava. Pensava que sentiria uma intensa estranheza ao ser enfileirado com tantos indivíduos de fato reprováveis.

Mas a ditadura de quartinho do nosso diretor havia esfriado minha emoção. Na hora não entendi por quê, mas sei hoje muito bem que o lado “bom” da luta, o lado dos que sentenciavam os travessos, também tinha um vício talvez mais profundo.

Inscrevi o diretor no meu livro negro, esqueci seu nome e tornei-me apaixonado pela plena liberdade de defesa.