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NEWSLETTER DE JUNHO

Já saiu a newsletter n. 2!

Nela você encontra o Prólogo do romance que estou para lançar, A Elite Luggnagg, sobre um cientista brasileiro que descobriu a fórmula para a grande longevidade.

Poderá ler também uma resenha que escrevi sobre o excelente livro Davi e Golias, de Malcolm Gladwell.

Nesta edição, vou sortear o livro Bartleby, o escrivão, de Herman Melville. Abaixo, uma breve reflexão sobre esse romance (não contém spoilers). Para participar, é fácil: leia a newsletter e e poste um comentário aqui abaixo, nesta entrada do blog, dizendo o que achou da edição n. 2! O vencedor receberá o livro em qualquer lugar do Brasil.

Aproveito para informar o ganhador do livro da edição de maio: Rui Xavier, que vai receber PLAY autografado pelo autor Ricardo Silvestrin. Agradeço a todos os participantes! Tentem de novo!

SOBRE BARTLEBY, O ESCRIVÃO

Surpreendente novela da metade do século 19.

É curioso que a atitude de Bartleby comece soando cômica, passe então a parecer visceral e até inspiradora para, no fim, tornar-se triste e miserável.

Personagem delicioso para qualquer caçador de símbolos.

Afinal, quem é Bartleby? Um idiota? Um perfeito homem novo? O gênio único que percebeu a inutilidade de tudo, a vaidade da vida, a indiferença do Universo?

Depois de viver tanto tempo diante de cartas extraviadas (como sugere o narrador no final), ele sentiu fundo a grande falta de sentido?

O próprio narrador é um personagem intrigante, indispensável para a revelação gradual de Bartleby.

Seja como for, uma excelente leitura, considero obrigatória para todos os amantes de literatura.

SOBRE “TÉCNICA PARA O ATOR”, LIVRO DE UTA HAGEN

Uta Hagen, importante atriz teatral norte-americana, dedicou grande parte de sua vida à pesquisa e ao ensino de interpretação. Falecida em 2004, aos 84 anos, deixou diversas obras, entre as quais este método organizado e moderno de atuação, que revela a arte que existe subjacente à técnica.

No título original de seu livro, a atriz e professora Uta Hagen pede “respeito pela interpretação” – uma referência explícita “ao fato de que todo leigo se considera um crítico capaz”.

É um livro de reflexões inteligentes e relatos elucidativos, que tornam sua leitura agradável, e não árida, como se poderia esperar de um método organizado. Uta Hagen propõe, com bastante clareza, exercícios eficientes, que nasceram das questões humanas e técnicas que vivenciou na prática.

O debate sobre a ética é uma marca do discurso da autora. O ator deve buscar o autoconhecimento e lutar pelo valor da arte. Hagen tampouco ignora aqui os problemas cotidianos vividos pelo profissional do teatro – a batalha dos testes de elenco, as pressões de produção, os jogos de poder.

Esta é uma obra para atores e profissionais da interpretação de todos os níveis, bem como para aqueles que se interessam pela arte e pela ética.

[Este texto é a orelha do livro Técnica para o ator, de Uta Hagen. Editora Martins, 2007.]

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A ARTE DA GUERRA, DE SUN TZU

A arte da guerra, de Sun Tzu, virou um super-livro, ou um metalivro para inspirar todo tipo de subproduto: A arte da guerra “para empresários”, “para atletas”, etc.

Um chamado à competitividade brutal em todas as áreas.

O livro em si, eu parei para conhecê-lo recentemente e, de modo geral, soou bastante óbvio.

A parte mais interessante é o prefácio que veio na minha edição, “A vida de Sun Tzu”, que conta como o célebre guerreiro, ao ser humilhado por um rei que o desafiou a treinar suas mulheres, condenou à morte e executou uma delas – a preferida do rei – porque as meninas não lhe obedeciam.

Mas uma ou outra citação vale a pena. Vou colar abaixo as que mais me agradaram!

“Estimado, respeitado, amado pelos teus, os povos vizinhos virão espontaneamente juntar-se aos estandartes do príncipe que serves, quer para viver sob suas leis, quer simplesmente para obter proteção.”

“Apesar de já teres dado mostras brilhantes de valor, o último revés apagará toda a glória acumulada.”

“Trata bem os prisioneiros, alimenta-os como se fossem teus próprios soldados. Na medida do possível, faz com que se sintam melhor sob tua égide do que em seu próprio campo, ou mesmo em sua pátria.”

“Age de tal forma que todos os que deves comandar estejam persuadidos que teu principal cuidado é preservá-los de toda desgraça.”

“Dominado pela cólera ou pela vingança, um soberano não deve
mobilizar as tropas. Tendo no coração idênticos sentimentos, um general deve evitar o combate. Para ambos, os tempos são nebulosos. Devem aguardar dias serenos para ponderar e tomar decisões.”

“Alguns soldados do reino de Wu faziam a travessia de um rio ao mesmo tempo que soldados inimigos do reino de Yue. Um vento impetuoso soprou e virou os barcos. Todos teriam perecido, se não tivessem se ajudado mutuamente. Eles esqueceram que eram inimigos; ao contrário, agiram como se fossem amigos ternos e sinceros. Eles se ajudaram, como a mão direita coopera com a esquerda.
Recordo esse fato histórico para que entendas que os diferentes destacamentos de teu exército devem se auxiliar mutuamente, mas ainda que é preciso que socorras teus aliados, que socorras inclusive os povos vencidos que necessitarem; pois, se eles se submeteram, é porque não puderam fazer de modo diferente; se o soberano deles te declarou guerra, eles não são culpados. Sê prestativo, chegará a tua vez de ser recompensado.”

RESENHA “A ARMA DA CASA”

Romance mostra o preconceito pós-apartheid

(Publicado originalmente em O Estado de S. Paulo, em 10 de junho de 2000)

Numa decisão em que certamente incorreram motivações políticas, a sul-africana Nadine Gordimer recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, em 1991.
Foi o mesmo ano no qual praticamente chegou ao fim o regime de apartheid, que ela denunciava em seus livros. É difícil avaliar seus méritos políticos, mas os literários podem ser vistos (ou revistos) neste novo romance, A Arma da Casa, lançado pela Companhia das Letras (355 páginas, R$ 32,50).

Publicado originalmente em 1998, retrata a África do Sul pós-apartheid a partir do transtorno vivido por um bem-sucedido casal branco, cujo filho torna-se autor de um impensável assassinato e deve ser defendido em tribunal por um advogado negro.

As forças presentes no romance são sugeridas logo de início pela inspirada epígrafe, atribuída a Amós Oz: “O crime é o castigo.” Na situação concreta do enredo, o crime (cometido por Duncan) é o castigo (dele e principalmente de seus pais, por viverem o inferno que veio conturbar seu sossego de classe média alta). Simbolicamente – mas com referências não menos concretas no contexto da narrativa -, o crime (o sentimento do preconceito, figura psicológica que a extinção política do apartheid não pode controlar) é o castigo (a experiência de uma desumanização).

A Arma da Casa é um romance pós-apartheid – a história está ambientada nos dias atuais -, mas uma virada política não transforma imediatamente sentimentos arraigados. O olhar da autora sobre o preconceito é ao mesmo tempo irônico e melancólico. Não há maniqueísmo. O racista praticante, de ontem ou de hoje, até pode ser considerado um indivíduo mau, mas Gordimer não está preocupada com ele agora. Seus personagens são os racistas pacíficos, que, em situações delicadas, vão tomando consciência de sua própria condição. De certa forma, se humanizam. Os que negam essa condição nem precisam ser punidos: sua estupidez é uma ironia contra si próprios.

Com isso, o racismo não aparece como o motor principal dos choques na narrativa, é habilmente deixado no fundo, quase como um detalhe. Essa estratégia é significativa. A autora já detecta o risco inerente ao preconceito fora da superfície, como fator implícito do comportamento.

Afinal, fica difícil lutar contra o que não é manifesto. É nesse aspecto que a situação retratada assemelha-se à do Brasil, que já teve o seu “apartheid”, cujas vítimas (ou, mais especificamente, seus descendentes) ainda padecem de discriminação e idéias preconcebidas herdadas. Em nossa terra (só aqui?) conhecemos bem as formas pelas quais esse preconceito age implicitamente: “Não tenho preconceito algum contra os negros. Nunca deixo de empregá-los por isso.”

Ponto de vista – Para aprofundar a exposição das relações entre as personagens, Gordimer aplicou uma manobra tática: o ponto de vista usado é o dos pais do assassino. Assim, eles representam diante do leitor o espetáculo do sofrimento como se fossem eles próprios os culpados – enquanto, mantendo a coerência da trama, o assassino real deixa transparecer uma indiferença quase estóica em relação à sua desventura. Com isso, a autora ainda consegue inspirar uma atmosfera de mistério policial, apesar de o criminoso entregar-se logo nas primeiras páginas – afinal, perguntam-se os pais, como é que pôde fazer o que fez esse nosso filho tão bem tratado, tão bem-criado, tão bem ajustado em sua classe e sua cor?

Quando esses pais – semiculpados pela atitude do filho – vêem-se “nas mãos negras de palmas rosadas” de um advogado respeitadíssimo, quando um homem negro é incumbido de livrá-los da dor de ver o filho condenado por um inaceitável assassinato que de fato praticou, ilumina-se uma situação terrível: eles, “que nunca foram racistas”, jamais haviam feito algo para abrandar o sofrimento dos negros numa época em que a cor da pele constituía, por si só, uma espécie de crime.

O crime é o castigo? Mas o mundo ainda não reconhece o tribunal da consciência humana. Legítima, só a toga do magistrado. Gordimer não desdenha a importância investida na convenção dos trâmites e conduz seu leitor por variadas reflexões a respeito das leis e a sua moral.

Não é nem um pouco estranho que um romance “estrelado” por um criminoso tenha uma voz narrativa que zombe das leis, com ou sem algum cinismo e um ar de “é melhor você não ver como a justiça e as salsichas são feitas”.

A perspectiva crítica de Gordimer pode não ser totalmente original, mas é aguda. Os eventos do processo criminal são desenhados como rituais formais, não como confrontos investigativos. São um teatro, não uma ciência. Dali não sai uma verdade absoluta, arrancada, com esforço, do mundo real, mas uma formulação convencional elaborada a partir de uma retórica programática. O próprio jogo – o confronto entre os advogados – não chega a existir: os dois lados têm o mesmo objetivo. Como afirma o advogado de defesa de Duncan, sua incumbência é “fazer com que a sentença seja apenas tão severa quanto o permitem as atenuantes – nem um dia a mais”. Nessa pantomima, o promotor tem precisamente o mesmo objetivo – nem um dia a menos.

Sem inovações estilísticas marcantes, A Arma da Casa consolida-se como boa leitura pela argúcia na criação do enredo e pelas intervenções ilustradas do seu narrador.

A escritora felizmente não permite que toda uma “temática” política e social avulte e transforme a narrativa em uma simples tese. Em primeiro plano estão os elementos mais romanescos – personagens fortes e realistas, situações inusitadas, observações irônicas, profundidade psicológica. Talvez tenha exagerado um pouco em alguns pontos da trama, principalmente no final, em que o suspense com relação ao desfecho chega a ser caricato. Mas isso não compromete o valor e o interesse do romance.

turingMachine

LEITURA DRAMÁTICA — O TESTE DE TURING

O Núcleo Arte Ciência no Palco, em projeto realizado com apoio da Funarte, fará a leitura dramática da peça O Teste de Turing, de Paulo Santoro.

Data: 30 de julho (quarta)
Horário: 20:30
Local: Teatro de Arena Eugênio Kusnet
Rua Doutor Teodoro Baima, 94 – República – São Paulo - SP

Gratuito

O teste de Turing é uma obra de ficção científica que se passa num futuro indeterminado. Utiliza o conceito de “inteligência artificial” como espelho para revelar as limitações da própria consciência humana.

Uma empresa de tecnologia afirma que construiu uma máquina capaz de simular por completo a consciência e o comportamento dos seres humanos. Para comprovar essa proeza, precisa fazer com que seu equipamento seja aprovado no famoso “teste de Turing”. Três diferentes profissionais (um linguista, um programador e um matemático) são chamados para pôr esse teste em prática.

Alan Turing nasceu em 1912, em Londres. Matemático de imenso talento, tornou-se um dos maiores pioneiros da Computação, ao desenvolver, em teoria, a “Máquina Universal”, conhecida também como “máquina de Turing”. Também trabalhou ativamente durante a Segunda Guerra Mundial para quebrar códigos das comunicações alemãs.

O teste de inteligência
Com o propósito de verificar se é possível atribuir a um computador a noção de “inteligência”, Turing elaborou um teste que se tornou referência na questão. O teste consiste de um ser humano que, fechado em uma sala com acesso apenas a um terminal com teclado, “conversa” (como num chat de internet atual), ao mesmo tempo, com outro ser humano (que está em outra sala igual, assim como ele) e com um computador. Se esse aplicador do teste não conseguir distinguir, dentre os dois “indivíduos”, qual era o computador e qual era o ser humano, o computador terá passado no teste de Turing.

A Informática no mundo moderno
No século XXI, cada vez mais se compreende que o computador é menos “tecnologia” do que parte da vida. As pessoas mais jovens já vivem intensamente sob esse paradigma. De tal forma que dificilmente se tem a visão de todas as implicações que a simples existência da computação pode significar para o sentido da vida. O teste de Turing procura mostrar que o desenvolvimento da inteligência artificial pode, num certo futuro, significar um desafio ao modo como o homem se vê e às suas crenças mais profundas.