Saiu na imprensa
Jornal do Brasil, 2003 (Rio de Janeiro - RJ)
Em 2003, ainda em fase de produção e atendendo somente
pelo nome "As Portas", a obra "Como escrever um best-seller
em 3 minutos" foi objeto de artigo no carioca Jornal do Brasil,
escrito por Marina Lemle. Matéria
original.
A Cidade, 2008 (Ribeirão Preto -
SP)
Já em seu formato 1.0, a obra mereceu matéria e entrevista
com o autor no caderno de domingo do jornal mais tradicional dessa cidade.
Por Lucas Arantes. Matéria
original.
3 de março de 2003
92.160 portas
Ah, como seria bom se da mesma forma que submetemos um texto a um programa
de correção ortográfica pudéssemos passar
o texto por um editor estilístico... Um dia, seria Julio Cortazar.
Noutro, Gabriel Garcia Marques. Ou Luis Fernando Veríssimo, Anaïs
Nin... Ou quiçá um pouco de cada. A idéia de construir
um romance que pode ser personalizado nasceu da cabeça do escritor
Paulo Santoro. Estudioso de inteligência artificial, ele criou
o romance ''As Portas'', que tem nada menos que 92.160 formas distintas.
Funciona assim: o leitor informa a um programa o gênero (romance
policial, sentimental, terror, ficção científica,
de arte), o tipo de vocabulário (clássico, executivo ou
acessível), o ritmo das frases (longas ou curtas) e outras dez
preferências, como se encomendasse uma obra a um escritor. A matemática
combinatória de todos estes parâmetros gera esta enorme
quantidade de livros.
''A obra é, ao mesmo tempo, um produto para consumo e uma crítica
ao mercado editorial e às fórmulas para redação
de livros'', afirma Santoro, que oferece em seu site, de graça,
uma versão de demonstração do livro, a ser lançado
em breve em forma de CD ROM. O autor estudou programação
e desenvolveu o aplicativo sozinho. Levou mais tempo - um ano - produzindo
as variações do texto. Segundo ele, a idéia é
inédita. ''Desde que os computadores começaram a se tornar
mais acessíveis, na década de 70, foram feitas algumas
tentativas de literatura gerada por computador, mas os únicos
programas que consegui conhecer combinavam palavras de modo mais ou
menos aleatório, ou embaralhavam frases prontas. Um programa
que constrói todo um romance baseado nas preferências do
leitor, disso não se tem nenhuma notícia'', diz. Agora
temos.
12 de julho de 2008
Romance personalizado
Você já pensou em ter seu próprio best-seller feito
por encomenda de acordo com o seu próprio gosto? Às vezes
você lê algum livro e pensa puxa, eu faria de outro
jeito? Pois isso não é problema para um recém-lançado
programa de computador que constrói romances personalizados de
acordo com o gosto do próprio leitor. A engenhoca saiu de uma
mente ribeirão-pretana, Paulo Santoro, que atualmente mora em
São Paulo e já teve o seu drama Canto do Gregório
montado pelo legendário grupo teatral Macunaíma, com direção
de Antunes Filho.
É o mesmo que encomendar uma obra diretamente com o escritor.
Santoro garante que a invenção é inédita
no mundo, e felizmente, foi escrito e desenhado originalmente em português.
Você pode escolher o gênero. Pode escolher o ritmo das frases,
a quantidade de descrições. Pode escolher se a história
terá final feliz ou não, sexo ou não, o nível
do vocabulário, a presença de metalinguagem. E o melhor:
é gratuito e fica pronto em três minutos. No mesmo programa
você pode encomendar quantos romances quiser. Acompanhe
a seguir a entrevista feita por e-mail com o escritor.
A Cidade - Quantas histórias você teve que compor para
formar esse programa? Qual programa usou?
Paulo Santoro - Usei algumas técnicas para não precisar
escrever um enorme número de histórias distintas. Considerando
o que é essencial para cada trama, pode-se dizer que são
30 enredos diferentes. Porém, levando em conta todas as opções
disponíveis, o programa pode gerar 92.160 romances diferentes.
O programa foi feito em Visual Basic. É uma linguagem de programação.
Eu elaborei todo o programa.
A Cidade - O resultado alcançado é inédito no mundo.
Como está sendo a repercussão dessa empreitada?
Santoro - Estou começando a divulgação, mas a curiosidade
que provoca é grande, e não poderia ser de outra forma.
A Cidade - Há quanto tempo esse projeto está sendo elaborado?
Como surgiu esta idéia?
Santoro - Eu comecei em 2001 e o coração do programa já
funcionava perfeitamente em 2002. Mas os computadores de 2003-2004 para
cá rodam melhor. Nos últimos meses eu me dediquei à
parte visual. A idéia partiu de uma curiosidade experimental.
Quando vemos certas obras de ficção, em especial as telenovelas,
mas também muitos livros, percebemos determinados ingredientes
e fórmulas que, a cada vez, são rearranjados para produzir
algo novo. Então um computador deve ser capaz de
fazer a mesma coisa!
A Cidade - O serviço é gratuito para o internauta/leitor.
Você ganha com o trabalho de outra forma?
Santoro - A remuneração do trabalho artístico é
uma questão complexa. Na internet, novas bandas distribuem gratuitamente
suas gravações, esperando contratos para discos e shows.
Recentemente, um livro fez sucesso na internet e, depois de 10 mil downloads,
ganhou publicação comemorativa em livro. No caso do meu
trabalho, há muitas vertentes. A principal e mais imediata é
a remuneração por anúncios no site de download.
Além disso, estou terminando de preparar uma cartilha que transformará
o programa em material paradidático, a ser vendido para escolas
e estudantes.
A Cidade - No ato de escrever cabe tudo. É uma abstração
muito grande para ser padronizado. Qual o seu objetivo com o projeto,
sendo que você quer até traduzir para outros idiomas? É
uma crítica ao escritor e ao individualismo contemporâneo,
ou não? Como é isso?
Santoro - Não seria decente eu dizer estou fazendo uma
crítica a tudo isso aí. Eu não teria me dado
ao trabalho se esta fosse a única motivação. O
programa é, antes de mais nada, muito divertido de mexer. Você
pode ficar brincando com ele, modificando as escolhas e tentando ver
o que é que está diferente no resultado final. Ou escolhe
uma vez e simplesmente lê como se você tivesse contratado
um escritor para escrever um romance personalizado de acordo com suas
preferências. Sem dúvida, ao mesmo tempo esse meu trabalho
pergunta: o que fazer com essas toneladas de livros que são lançados?
Como escolher o que ler? Minha citação preferida é
do Voltaire: Muitos livros são publicados todos os dias
para aumentar nossa ignorância. Somos obrigados a ignorar
99,9999% dos livros que surgem. Mas será que podemos ignorar
um programa que promete criar um romance personalizado para nós,
de acordo com nosso gosto? O interessante é levantar essas questões.
A Cidade - Como você enxerga o papel do escritor no Brasil?
Santoro - O país não importa necessariamente. Devemos
conhecer nossa literatura, mas acho lamentável que o ensino se
resuma a obras de autores brasileiros e portugueses. Seria muito mais
rico se houvesse uma diversificação, com a inclusão
de autores como Borges, Kafka e Camus. O papel do escritor é
criar algo que realmente atraia e entretenha, ao mesmo tempo em que
inspire no leitor a reflexão para determinados aspectos da civilização.
Pode se tratar de algo relacionado ao seu contexto político e
social, mas também pode ser do universo humano e existencial.
